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1 novembro 2026

PF prende deputado mais votado do Rio RJ por suposta lavagem de dinheiro

Deputado mais votado no Rio é detido pela PF e liga parentes a redes de postos de gasolina e milícias.

PF prende deputado mais votado do Rio RJ por suposta lavagem de dinheiro

Na quinta-feira, 15, a Polícia Federal efetivou a prisão de Márcio Canella deputado estadual eleito pelo União Brasil com 197.178 votos. A medida foi justificada por suspeita de ser beneficiário de um amplo esquema de lavagem de dinheiro operado em postos de combustíveis da Baixada Fluminense. A investigação aponta que a rede teria movimentado cerca de R$ 7,6 bilhões em seis anos, vinculando figuras políticas, agentes públicos e milícias.

A acusação e o esquema investigado

A Operação Unha e Carne, conduzida pelos delegados da PF, descreve Canella como o “patrono político” de uma organização criminosa. Segundo o relatório, ele atuaria como elo ligando o poder público, empresários do setor fuel e grupos armados, inclusive o Comando Vermelho. A ação também resultou na suspensão das atividades de 112 empresas, das quais 96 são postos de gasolina, e na prisão de um ex-chefe da Polícia Civil, Marcus Amim. Os investigados são acusados de associação criminosacorrupção ativa e venda ilegal de combustíveis.<\/p>

Canella, ao ser indagado, afirmou que “confia em Deus, na Justiça e que tem certeza que tudo será esclarecido”. Sua defesa, entretanto, ainda não teve acesso integral à decisão que o incrimina. Enquanto isso, o ministro Alexandre de Moraes, em decisão ao STF, manteve a acusação de que o deputado seria o articulador de alto escalão da suposta quadrilha.

A rede de aliados e o uso do sobrenome “Canella”

Nos últimos anos, o sobrenome “Canella” virou marca política na região metropolitana do Rio. Um vereador do Rio, dois vereadores de Belford Roxo e um suplente em São Gonçalo passaram a usar o apelido nas campanhas. Em 15 de abril de 2022, a então vice-prefeita de Belford Roxo, Mariana Malta, passou a assinar “Mariana Canella” ao assumir a chefia municipal, consolidando a estratégia de afinidade nominal. Secretários municipais e candidatos sem sucesso também adotaram variações do nome, como “Márcio Correia de Oliveira”.

Dois nomes citados no inquérito são Hugo Correia da Cruz – conhecido como Hugo Canelão – e Jorge Canella. Hugo, suplente de vereador em São Gonçalo, seria supervisor dos postos de combustível incluídos no esquema e lideraria a articulação político-eleitoral na cidade. Jorge, vereador pelo Rio e tenente-coronel reformado da Polícia Militar, foi preso em setembro por posse irregular de armas de fogo, mas libertado na quarta-feira, 14, um dia antes da prisão de seu primo. A presença de parentes e aliados na política local reforça a ideia de uma rede de proteção institucional.

Trajetória política de Márcio Canella e repercussões recentes

Originário da Baixada Fluminense, Canella iniciou sua carreira como camelô no Mercado Popular da Uruguaiana e, posteriormente, como secretário de Belford Roxo na gestão do então PT Alcides Rolim. Ele foi eleito vereador em 2012 e deputado estadual em 2014. Em 2016, assumiu a vice-prefeitura ao lado de Waguinho (Republicanos). O relacionamento se deteriorou em 2022, quando Waguinho desistiu de renunciar à prefeitura para disputar o governo estadual, deixando Canella como provável sucessor até as eleições de 2024.

Aliado de Flávio Bolsonaro, Canella foi destaque em evento do PL em julho de 2024, onde recebeu maior atenção que o próprio candidato à presidência. Na semana seguinte, porém, foi detido em flagrante após a PF encontrar um fuzil em seu carro, sendo solto três dias depois. A prisão de julho marcou sua primeira detenção; a nova prisão, em 15, ocorre quando ele ainda era o segundo deputado estadual mais votado do Rio. Ainda, na quarta-feira, 14, a Câmara de Belford Roxo escolheu Sidney Canella, primo do deputado, como presidente da Casa, reforçando a influência da família na política local.

O caso segue sob análise do Supremo Tribunal Federal, enquanto a Polícia Federal mantém a investigação em curso, apontando para possíveis ramificações envolvendo milícias, agentes públicos e a vasta cadeia de postos de combustíveis. O desdobramento judicial poderá impactar significativamente a dinâmica política da Baixada Fluminense e do estado do Rio de Janeiro.

Vasco Sousa
Autor

Vasco Sousa

Vasco Sousa coordena salas de edição em Lisboa com porte executivo e fato escuro, conhecido por afinar pautas em reuniões rápidas no Miradouro de São Pedro de Alcântara. Exerceu funções editoriais em suplementos locais, licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade de Lisboa e colecionador de cadernos de reportagem antigos.